sexta-feira, 6 de março de 2020

Carnavalesca

Já é fevereiro, quase março
O amor durou mais que o esperado 
E as chuvas estão chegando
Regando as lavouras e o meu coração
Eu te sinto no ar, na brisa, na pele e nos versos da nossa canção.

Sinto o outono em mim, nos meus pelos arrepiados, nas minhas narinas que ardem, na minha voz a falhar.
Sinto a vida vibrando em mim, é algo familiar.
São os mesmos efeitos que você me dá. 

Escuta, meu bem, os maracatus,
meu coração ressoa essas marchas como orquestra no Dona Lindu 
Com a mesma pressa em que te espera chegar.

E você vem, como anuncia o Alceu, você vem 
E por mais que escute os teus sinais 
Não sei como me preparar,

Pois se tu vens, por perto das onze horas 
Terei bandeirolas para pendurar 
Cantando tareco e mariola
São João menino não tarda a chegar
Então vamos, Meu bem
Que logo mais o bloco vem, e a folia vai passar.

Veste tua fantasia, e sai comigo na pipoca 
Com cheiro de maresia, bolo, pudim e paçoca
Eu não irei sem ter você, e temo que até o entardecer 
Haverá gliter meu, em você.

Porque tu veio do Carnaval, e eu nasci banhada nas águas de março 
Mas sigo teu compasso
Mesmo não sabendo dançar. 

Tu saiu na avenida, vestida de sol, eu de longe era a lua sempre te acompanhando, 
Sem me importar.
Lados opostos de uma mesma moeda,
Nunca podem se tocar.

Mas hoje tu é a praia, eu sendo a chuva;
E assim como eclipses, tempestades de verão
Tenho a certeza, em meu coração;
Nos uniremos em alguma folia, 
Na roda de coco, no show de frevo, no bar do seu Zé Moço
Numa esquina mal falada, 
Ou nas encruzilhadas
Que a vida nos dá.




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Me deixe ficar.

14 Fevereiro, 2020. Cabo - Pe


Meu bem,


Até chegar aqui, tropecei em tantas pedras, cada uma desviando meu caminho à sua maneira, me fazendo atrasar um pouco. 

Uma hora, duas, um ano ou outro.

Tivemos desencontros. 

Eu ainda não sei lidar com a falta, desde aquele dia em questão. 

Acordei um pouco pra lá de tarde, saltei da cama em desespero, procurando meus sapatos e minhas certezas. 

Meus sapatos estavam debaixo da cama, as certezas nunca as tive.

Fui atrás de você.

A condução corria naquela estrada, e as árvores se iam, e eu me perdi no tempo tentando me encontrar nas nossas lembranças. 

Nosso breve encontro, o toque singelo com gosto de beijo roubado na saída do colégio. 

Bagunçou um pouco aqui. 

Comecei a perceber 
Que eu precisava de um abraço e um beijo
De uma xícara de café e um xêro
De meio segundo ou então um ano inteiro. 

Meus pulmões se encheram, com a brisa do mar e desejo, e mais uma vez eu não soube lidar. 

Também não soube como te falar
Que é em seu entorno que encontro a lembrança das coisas que mais me conforta, cala meus devaneios incertos, e minha alma senta e observa o tempo passar. 

Esquece que temos que correr, que sempre fomos assim. 

Mas você me segura pela camisa, na barra, e me pede calma, alma, descansa um pouco
Me deixa ver teu rosto, respira um pouco, olha pra mim... e só então me deixa ir. 

Talvez tudo fosse mais fácil, se você não tivesse esse cheiro de chuva de verão e maresia, pequenas coisas na vida e a alegria, junto com essa energia de que apenas pessoas que são sol

Podem ter. 

Att. Sua Lua.




P.s: Transbordo com você. 



segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Barmen


A rotina de atendente em um bar do centro era um tanto quanto agitada, por assim dizer, mas nada que eu não pudesse conciliar. Aquela quinta-feira em especial estava mais movimentada que os dias anteriores, ainda assim menos do que seria nos dias seguintes. Já fazia alguns pares de horas que eu trabalhava tranquilamente, enxugando e guardando alguns copos americanos que vinham limpos da cozinha, entregando um ou outro litrão para o menino que recentemente foi contratado como garçom e vez ou outra fechava uma conta e entregava o troco.
Tudo seguia como o esperado para um noite de quinta num boteco de quinta; senhores, que trabalhavam como pedreiros em uma obra ali perto, se embriagavam em umas da mesas enquanto fazia suas apostas no dominó gastando parte  do dinheiro ganho na semana; adolescentes vinham comprar vinho gelado e logo seguiam para alguma praça. Ali era o tipico ambiente que só frenquentava coroas, cornos e desiludidos com a vida.
As vezes eu tinha o infeliz azar de um dos clientes ser a mistura dos três, e nesses casos era inevitavel não se sentir dentro de um clipe do Reginaldo Rossi.

Lá pras oito horas, uma pessoa incomum chegou ao bar. Uma jovem garota com o olhar distante, bonita até. Já me preparava para tirar uma garrafa de vinho do freezer quando ela sentou no balcão, no único banco que dava visão para a rua.

"Vinho?" Perguntei.

"Cerveja, Itaipava latão. E duas fichas." Assim que foi entregue seu pedido, a grota levantou-se pegando um taco recostado na parede ao lado do balcão e dirigiu-se á mesa de sinuca que, por algum milgre, estava esquecida naquela noite.

Fui obrigado a desviar minha ateção da figura peculiar quando outros clientes chegaram, assim mais um par de horas se foi.

Mais alguns latões e mais tres fichas, a garota, que agora eu sabia se chamar Vitória, encontrava-se sentada novamente ao balcão. Catava alguns amendoins e olhava vez ou outra para algo na praça que ficava de frente ao bar. Um maço de Hollywood foi pedido. Descobri que o alvo de sua atenção era um casal sentado em um banco da praça. Era uma pena uma garota tão bonita estar assim por um cara qualquer, mas não podia negar que esse tipo de situação era bastante comum. Em todos os lugares.

Não demorou muito até que o casal fosse embora, e assim Vitoria trocou suas Cervejas por doses de aguardente, e nessa altura eu já me econtrava impressionado por ela não estar caindo pelo bar, considerando seus seis latões e as três doses de Pitu. Cada minuto que se passava, aquela garota me deixava ainda mais inquieto, e curioso. Seu maço de cigarros pela metade, ela rabiscava algo em um bloco de notas. O relógio já marcava uma da madrugada, o bar já quase vazio, mas ela não parecia se importar com isso.

"Você não acha que é muito jovem para tanto álcool?" Perguntei.

"Sou jovem para um par de coisas, mas isso não significa que eu não as faça." Respondeu.

"Quantos anos?"

"Dezenove."

"Sua bebedeira tem um motivo. Algo ou alguém?"

"Sabe que não precisa bancar o garçon amigo, não sabe?"

"Estou curioso, não pude evitar."

"Olhe, está tarde. E eu, bebada. Nada de realmente proveitoso acontece nesse horario. Então apenas desça mais uma dose e me deixe terminar de me desgraçar."

"Vamos lá, pelo visto temos a noite toda aqui. O bar tem uma política de apenas fechar quando o ultimo cliente for embora. Além do mais, notei seus olhaes para o casal que estava lá fora." Vitoria levantou o olhar do copo, me olhando indiferente.

"Sei que notou." Sua atenção logo foi para os seus amendoins.

"Oras, faremos assim; Seu Jão não se importa que eu beba, divida comigo o que restou do seu maço, e eu ponho dois litrôes, e de quebra alguns amendoins por conta da casa." E assim foi.

Já estavamos na metade do segundo litrão e Vitoria nada havia me contado, então nos distraimos com algumas bobagens. Seu bloco de notas estava abarrotados de escritos, a quais não consegui permissão para lê-los, apenas o endereço eletronico de seu blog, onde ela postava alguns textos. A Jovem escritora divertia-se com as historias que eu contava a respeito das pérolas que aquele bar já recebeu, ao longo dos anos em que eu trabalhava ali. Prometia entre uma e outra risada contida, escrever sobre o que eu contava.

"Sabe, você é uma garota legal de mais para sofrer por uma cara daqueles, que nem ao menos combina com você." Se eu quisesse conseguir algo dela, teria que começar a jogar em algum momento. Vitória apenas riu da minha cara, acendendo seu ultimo cigarro.

"Me desculpe, mas voce não faz meu tipo, Welber." Não pude deixar de rir de sua brincadeira.

"Voce tambem não faz o meu." Foi sua vez de rir.

"É, eu sei bem." Fiquei confuso com sua frase.

"O que quis dizer com isso?"

"Sou amiga do Daniel... De longa data." Respondeu simples com um dar de ombros, não pude deixar de ficar surpreso, mas logo tratei de me recompor.

"Mas o assunto aqui não se trata de mim. E agora que deixamos as formalidades de lado, trate de ir direto ao ponto que eu ainda estou curioso." Retirei mais um litrão do freezer.

"Você não vai desistir, não é?"

"Não." Ela suspirou, terminou seu copo e encheu de novo.

"Aquela garota, que acredito que você nem ao menos notou a cara pois estava ocupado de mais analisando o boy, costumava ser minha namorada. Aliás..."

Há exatos cinco dias atrás
Ela era minha namorada
Há exatos cinco dias atrás ela dizia que me amava
Sempre antes de dormir
Há exatos cincos dias atrás ela me fazia planos e me jurava coisas
Agora, cinco dias depois, ela aparece de mãos dadas com um cara qualquer
E eu me pergunto para onde foi todo aquele amor

"O que você pretende fazer?"

"Agora ? Vou para casa, terminar minha noite no conforto de minha solidão. Pelos proximos dias, talvez meses, estarei usando dela e tudo que me causou para escrever textos ruins que só pessoas em situações piores que a minha gostariam de ler." Ela se levantou, deixou uma nota sobre o balcão, que cobria o seu consumo e até mesmo as bebidas a mais que eu peguei, esticou-se sobre o balcão pegando um maço de cigarros do suporte e me deu as costas.

"Diga ao Dan que eu mandei lembranças." E se foi.

Desde então, costumo visitar o blog que ela me permitiu acesso. Daniel me deixou faz alguns meses, e descobri que Vitoria tinha razão a respeito de seus textos.

Apenas pessoas em uma situação pior que a dela gostava de ler suas palavras.

Eu era uma dessas pessoas.

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Cássia

Por algumas horas madrugada adentro, me perdi entre alguns pensamentos deconexos e as palavras que minha mente insistia em juntar ao seu respeito. 

De algo eu tinha certeza; eu não sabia como descrever aquela garota, agora, mulher. 

Os anos passaram, alguns meses despercebidos, era certo. 

Muita coisa havia mudado. 

Tudo sobre sua aura, que continuava a mesma, mas era diferente em alguns aspectos. 

Se eu tivesse que tecer um personagem, em base do que conhecia de Cássia, ou no que via, ouvia ou até mesmo sentia... 

Pouco se pareceria com a atual realidade, e isso não seria nem de longe algo sensato. 

A verdade é que eu a via, na essência do frevo, da folia, até nas bebidas típicas do estado. 

Cássia era Pernambuco, em todos os sentidos. 

Sabia ser caótica, cultural.

Tinha lá os seus segredos, mistérios, fantasma em gavetas, como qualquer folião em meio ao carnaval. 

Mas ela era diferente. 

Até mesmo em ser comum. 

Era curioso como conseguiu se encaixar em uma vida normal, rotineira, e mesmo assim ser diferente das demais. 

Se eu realmente fosse escrever sobre Cássia, seria algo como uma composição do Alceu, com um pouco de SOAD. 

As vezes eu me confudia. Seria ela a Belle de Jour, ou a Belle de Jour era ela? 

Eu não sabia dizer, de verdade. 

Eu nunca escrevi sobre Cássia, e nunca irei escrever. 

Mas se um dia acontecer, talvez eu fale do maracatu, ou do coco de roda... Dos eventos underground em que nos encontravamos, quem sabe. 

Escreveria sobre sua naturalidade em falar da erva, das plantas e planaltos, do seu engajamento em projetos sociais... Do quanto seus cachos combinam com as cores de flores de pampolas, ou do quanto eu acho que girassol é a sua flor... E amarelo é sua cor. 

( Aura dourada, sempre teve ) 

Aquele tipo de pessoa cativante, que te lembra a raposa do pequeno príncipe, mas tem um sorriso imenso, que te lembra do gato da alice...

sem todo aquele lance psicodélico. 

De olhar tão doce, ao mesmo tempo que era sério...

Também é aquele tipo de mulher que eu costumo dizer que tem o "olhar de Capitu", mas nela também há um pouco de Gabriela.

Isso porque ainda não mencionei o sol na praia, e seu cheiro de sombra abaixo de cajueiro. 

Seu abraço faceiro, como uma conversa descontraída na calçada de uma viela.

Há tantas outras coisas que eu poderia escrever, mas não sei se me sobraria papel para qualquer outra coisa que eu fosse fazer. 

Talvez, se um dia eu realmente for escrever sobre Cássia, temo que eu tenha que passar numa papelaria antes. 

Anotaria também o que meus amigos do outro lado falavam, e falam. Seriam tantas coisas, tantas palavras...

Seja por isso, ou por qualquer outro motivo, eu não me atrevo a escrever sobre Cássia. 



O maior filha da puta de todos

Todos sabem o meu nome, mas poucos me conhecem verdadeiramente.

A verdade é que costumam me idealizar, na maioria das vezes.

Me pintam como calmo, sublime, atencioso, doce... E até mesmo curandeiro. 

Vê se pode? 

Logo eu... 

Eu posso até ser doce, ou atencioso, mas isto apenas nos primeiros encontros quando me conhecem superficialmente. 

Mas aqui lhes digo o que não lhes disseram sobre mim. 


Eu sou cruel, rancoroso, e persigo quem insiste em me negar. 


Em algum momento de sua vida eu vou ser como todo um caos, como uma tempestade em um pote de vidro. 

Eu vou te perseguir, onde quer que você vá, e não vai existir um lugar no mundo onde você possa se esconder. 

E eu vou quebrar você, em pequenos pedacinhos, ao ponto que você se corte em cada um deles enquanto tenta remontar a si mesmo. 

Porque eu sou assim. 

Eu sou devastador, avassalador. 

E não tem como fugir de mim. 

Eu vou te acelerar o coração, fazer com que seu sangue corra rápido nas veias, vou nublar seus pensamentos enquanto ponho todo o seu mundo de ponta cabeça! 

E se acaso você não souber cuidar bem de mim...

Vou te fazer chorar pela perca, por algo que nunca mais poderá ter! 

Porque sou vingativo.

Vou torturar você, todos os dias, com a dor de uma eterna saudade, que nunca passa, que nunca para, que nunca supera... 

Te ensinarei da pior forma, que não se deve deixar a sua pessoa passar por você... Que não se deve deixa-la no meio do caminho. 

Quando se encontra seu alguém, o leva consigo. Pelo que resto das suas medíocres vidas, - que acaba se tornando menos mediocres enquanto tiver minha benção - ... ou carregue consigo apenas a memória.

E as memórias, meu caro... Também é uma das minhas armas de torturas. 

E eu sou muito bom nisso... Torturar pessoas.

E elas são masoquistas, gostam da dor que eu causo. 

Mas também sei ser benevolente, sei ser piodoso. 

Não culpo as pessoas por me confudirem e acharem que eu resido em alguém, e logo após quebrar a cara. 

Eu assumo, sou algo confuso, difícil de entender, lidar e reconhecer. 

E as pessoas se deixam ser machucadas por pessoas que não são pra elas, e isso é um absurdo! 

São anos de trabalho árduo junto ao destino - aquele filho da puta barbudo e fedido à cigarros -, para achar um alguém compatível para cada pessoa na face da terra. Ele e sua esposa, Vida, são pacientes em juntar as peças, as movendo devagar em um meticuloso jogo de xadrez que é a vida de vocês, e vocês apenas cagam para o nosso trabalho! 

Sabem o quão terrível é ter de trabalhar com o Destino? Ele se acha o cara. 

Sendo que Eu que sou o cara. 

Fico muito puto com vocês, mas o que posso fazer? Como diz a Vida, eu sou jovem e devo ter paciência. 

( Ela também diz que eu tenho que parar de beber com o destino minutos antes de trabalhar pois sempre acabamos fazendo alguma merda, mas isso não vem ao caso. ) 

O que me resta é ter paciência e piedade com alguns, tipo aqueles que se metem em relacionamentos abusivos, e aqueles que perdem cedo seus companheiros por puro descaso do imbecil do destino ao dormir bêbado por cima do tabuleiro.

A esses eu reservo uma segunda chance. 

Duas.

Três.

Quantas necessárias. 

Apenas não tenho pena dos artistas...

Dos poetas, em especial.

Mas não me julgue! Se eu tivesse dó de algum, nenhum deles existiriam. 

Minhas tiranias são necessárias para que eles criem, e devo dizer... Quantas obras belíssimas! Adoro quando falam de mim, a maioria me desenha muito belo, e eu não posso negar que sou mesmo muito belo! Afinal, eu sou o Amor, nada mais adequado, não acham? 

Mas, de longe, os poetas que mais gosto é os que me pintam nu em pelo.

 Como verdadeiramente sou. 

E não algo como um genérico comercial de dia dos namorados, que nojo! 

A esses dou uma atenção especial, e digo que um dia, quando eu cansar de tortura-los, lhes dou o que há guardado na gaveta de minha mesa de trabalho. 

Cada um no seu devido tempo, terá de mim exatamente o que merece. 

Alguns, mais tortura! 

( É, eu não me canso disso. )

Outros... 

As suas pessoas. 

Ah, as vezes quando o Destino bebe de mais, eu consigo convencer ele a por mais cedo o amor no caminho de alguém, mas eu sempre tomo esporro da Vida por isso - por mais que eu saiba que ela também gosta de aprontar aqui e ali - é que eu gosto de ver as pessoas se foderem quando pensam que estão indo bem. Mas quem pode me culpar? Aposto que vocês também fariam algo do tipo se tivessem tais poderes em mãos. Irresponsável? Sim, claro, eu sei que sou. 

Mas também dou a mínima para isso. 

Eu sou o Amor, e com meus poderes faço deles o que bem entendo, apenas aceitem, mortais! 



Amor líquido

Amor líquido é eu lembrar de você a cada gole que tomo.

Amor líquido é eu ver seus olhos no fundo de cada copo que viro. 

Amor líquido é eu ter meus pensamentos em você mesmo em meus momentos de ressaca. 

Você é meu amor líquido... Ou melhor, minha decepção diluída em álcool.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Romance astral

A vida é casada. 

Com um moço à beira dos quarenta, barbudo e carrancudo. 

Chama-se Destino. 

Não é um casamento feliz, posso perceber. 

Mas fico feliz em saber que todos nós temos amores impossíveis.

Até mesmo o astro rei.

Deus foi misericordioso ao lhe conceder o Eclipse, para que ele voltasse a reencontrar sua amada Lua. 

Mas um raio não cai no mesmo lugar duas vezes, e eu sou a prova disso. 

A Vida, ainda mais. 

O amor da Vida, é seu total aposto.

Em número e grau. 

Não sei como funciona a realeza das forças superiores, mas é bem óbvio e fácil de deduzir que este é o amor mais impossível de todos. 

Talvez a Vida, amargurada como é, viva tramando junto ao Amor. Assim juntos colocam pessoas opostas no caminho uma da outra, na vaga esperança de que um dia alguém possa se sentir ao menos um terço de como ela se sente. 

Eu a entendo. 

Faria o mesmo se tivesse a chance. 

Fico feliz por ter sido a causa do reencontro. 

Deitada em meu leito, observo as duas forças descutirem ao meu respeito. 

A Vida, em toda sua glória, seus cabelos brancos brilham como uma benção do próprio sol, seus olhos escuros em uma eterna ferida que nunca se fecha. 

A falta que o seu amor faz. 

Vejo seu rosto enrubescido em raiva, diz que ainda não é a minha hora. Que tem tudo arquitetado. ( Suponho que seja rabisco mal feitos no livro da Vida, considerando o quão perturbada a minha própria vida é. )

A Morte está impassível, com as mãos nos bolsos de seu manto, seus cabelos negros como um céu estrelado, seus olhos em um branco cintilante. 

São conformados. 

Se conformou e aceitou as consequências das coisas que não tem controle. 

Como se apaixonar pelo mais belo dos seres.

E por ser seu total oposto, teve sua punição. 

Seres divinos não devem embarcar em romances astrais. 

Tudo conforme o que está escrito, cada qual com seu qual. 

A Vida e o Destino.

A Morte e sua eterna solidão.


Faz algumas horas que às vejo discutir. 

Pude fazer algumas suposições, e tomar minhas próprias conclusões. 

A Morte diz que ela está apenas dificultando seu trabalho, que teria que me levar logo, e não havia nada que pudessem fazer. 

Sua delicadeza ao escolher cada palavra dita, me faz acreditar que nem mesmo para ela aquele encontro era agradável. 

É certo, minhas escolhas me levaram até ali. 

Enchi a cara com tudo que encontrei, aceitei tudo o que me fora oferecido por não suportar ver o meu amor partir... Para os braços de um outro alguém. 

Tentei inutilmente parar um casamento, apenas para ser arrastada porta-afora pelos seguranças, sem ter a chance de chegar nem ao menos perto do altar.

Eu era um fracasso. 

Até mesmo em morrer. 

Minha overdose foi quase letal. 

Assim como eu quase consegui.

Quase.


A Vida se irritou, dizendo que eu fiz exatamente o qua a Morte deveria ter feito. 

Eu tentei. 

Com todas as minhas forças, eu tentei. 

Mas não há como lutar contra forças sobrenaturais.

Eu pensava isso até então. 

A Vida tem o olhar de uma criança, e as vezes age como. 

A Morte, não brinca em serviço. 

Tem a seriedade de quem sabe todas as perdas que teve, os péssimos trabalhos que teve que fazer. 

É um trabalho difícil, eu reconheço.

Ouvi as enfermeiras comentarem sobre uma criança que se foi na noite passada. 

Vítima de um câncer, a Morte lhe acolheu em seus braços após um Ceifeiro vir fazer seu serviço.

Ela apenas cuidava do restante. 

Estranhei o fato de nenhum anjo da morte ter vindo me buscar, mas entendi logo depois. 

A Vida se pôs em minha frente. 

"Sabe o que eu acho? Vocês deveriam parar, não vão chegar a lugar algum assim." 

Roubei a atenção, me olharam em surpresa. 

Se perguntando o quanto ouvi da conversa. 

Tudo.

"Você, moça, é uma filha da puta." Ainda se perguntavam se eu estava falando sozinha ou com elas, eu podia ver em suas expressões. "Acho que milhares de anos não lhe ajudaram nisso. O Tempo foi implacável com você, como é com todos nós, mortais. E como forma de vingança, você fode com a gente sempre que pode." 

"Poetas..." A Vida suspirou. "Havia me esquecido disso." 

"Percebo." A Morte acentiu, levantando sua foice. 

"Pare ai mesmo onde está, benzinho. Você é bem bonita, mas não faz o meu tipo. 
Estou a horas ouvindo a ladainha das duas, hora de ouvir a minha." 

Elas permaneceram estupefatas.

"Você, Vida, está me usando. Não tem porra de propósito nenhum. Eu sou um pretexto, para que você a encontre. 
A anos a Morte não desce à terra. Ela espera no portão, para isso ela tem seus soldados. 
Os vi ir e vir pelos corredores nas vezes que acompanhei minha mãe no hospital. 
São prepotentes. Vi um levar minha mãe consigo, sem acreditar que eu presenciava todo o processo... Mas não estamos aqui para falar disso. 

Talvez eu seja apenas uma louca em seu leito de morte, mas estou aqui assistindo uma D.R de dois seres que vão além da minha limitada compreensão. 

Vida, usou deste infortúnio para tentar matar a saudade que lhe consome. Após se cansar de ferrar com a vida dos outros. 

E onde está o amor? Foi pra casa do caralho.

Mande lembranças àquele filho da puta, estou livre de suas amarras, prestes a partir. 

Ele me jurou que seria condolente comigo, mas não o vejo fazendo isso. 

Ele apenas também me usou para o reencontro de vocês. 

Essa talvez seja a pior verdade, fomos nós três manipuladas. 

Por um único cara. 

Acabe logo com isso, Morte. 

Mas me façam um favor, a mim e todos os outros mortais, procurem o verdadeiro culpado para que não estejam juntas agora. 

Mas eu verdadeiramente acho que não há um culpado.

É de sua própria natureza. 

Como polos apostos de um ímã, acabam se repelindo em algum momento. 

Agora eu entendo. 

É como eu já havia lido; alguns amores são feitos para existir, não para acontecer."

Fechei os olhos em derrota, estava cansada. 

"Acabe logo com isso." Murmurei. 

O silêncio se instaurou entre nós até que a Vida se pronunciou para a Morte.

"A garota dela está na recepção, a decisão é sua."

A porta bateu, e eu não me lembro de muita coisa depois disso.