terça-feira, 22 de março de 2022

Metamorfose.

 Sempre me perguntei como um corpo tão pequeno consegue suportar tanta dor dentro de si, o peso de toda uma vida somado ao peso da mudança. 

Assim me dei conta de que cada um de nós é um universo, e que a mudança é dolorosa porém necessária. 

Até um pequeno ser considerado irracional lida com a mudança com mais facilidade que nós, seres providos de inteligencia, e talvez seja essa mesma inteligencia o motivo que nos faz demorar a aceitar o novo.

Quando não agimos por impulso, influenciados por nossas emoções e pensamentos, calculamos, organizamos e perdidos nesse mar de pensamentos, papéis e horários, não nos damos conta que o tempo está passando e assim a mudança chega, silenciosa e traiçoeira.

Faz um grande estrago, põem tudo ao avesso, uma grande bagunça. 

Pensamento equivocado o meu! 

Ora, a mudança é tão silenciosa quanto as ladeiras de Olinda em em prévias de carnaval.

Ela grita. 

Ninguém ouve.

Ela liga para avisar que está a caminho, mas ninguém atende a porcaria do telefone. 

Por vezes até se desespera, se descontrola, como uma menina claustrofóbica, e sufoca toda aquele que ousa tentar calar sua voz...

É um medo irracional este que temos da mudança, mas uma coisa é certo: Exageramos tanto na borda do ser ou não ser, apenas para no fim do percurso descobrirmos que parte de nós sempre tende a morrer enquanto mudamos. 

Talvez por isso eu tenha tanto medo da menina mudança.

Lápide.

Se pensa que escrevo para deixar algo para o mundo está enganado, seu moço. 

Nada devo ao mundo, devo apenas a mim mesma. 
As promessas que me fiz, e que ainda pretendo cumprir.

Pensando assim, o mundo também nada me deve, ao contrário do que já achei que ele me devia. 

Por toda dor e pouca alegria. 

Mas se não escrevo para deixar algo para o mundo, por que, então, eu escrevo?

A explicação é bem simples, até. 

Escrevo porque desejo.

Porque quero, porque vejo lampejos, prevejo o que posso me tornar. 

Caso assim eu queira.

Quando escrevo me descrevo.
Se não escrevo, 
Me sufoco.

Morro, enforcada na curva de uma letra cursiva...

Não com S, de suicídio, mas com o L,
Do quão livre eu pudera ser um dia, 

caso tivesse escrito. 

Então repito: escrevo pois sobrevivo, 

pois senão eu morreria...

Pobre, de cultura.

Sozinha, e sem versos em minha sepultura. 

Dos mesmo criadores de O Brasil me obriga a beber, vem ai: A vida me cansa.

 Lembro de dizer assim pra mainha: estou tão cansada. 


E ela parou a xícara no ar, a caminho dos lábios, entortou a cara e respondeu:

Mas

minha filha,

tão jovem? 


Sim, muito jovem para estar tão cansada, ainda sim estou. 

Já faz alguns anos, mas ainda mantenho o mesmo estado. 

Ora, eu sou uma escritora. Boa ou má é detalhe, mas ainda sou jovem

e estou cansada.

Incoerências.

Quando seus pensamentos estão incoerentes 

Ela se sente perdida mesmo quando tem acabado de se encontrar
Vagueia em devaneios, caminha entre quartos e salas de estar 
Tenta por as coisas de volta no lugar

Quando seus pensamentos estão incoerentes

Ela liga o rádio
Passa um café
Acende um cigarro, consome um maço 
E se pergunta o que fez de errado

Quando seus pensamentos estão incoerentes 

Ela desempacota a mudança
Organiza as prateleiras
Revive as lembranças 
e descarta todos os sinais de esperança

Quando o seus pensamentos estão incoerentes 

Tudo ao seu redor é um pouco confuso
e mesmo em um lugar tranquilo
Seu mundo não soa menos esquisito
Dessoante, ainda assim combina com sua incoerência 

Quando seus pensamentos estão incoerentes 

Até o álcool se torna ineficaz 
Ela se sente incapaz
Até mesmo tenta seguir em frente



Mas tudo que faz é olhar para trás.

Eu odeio despedidas

 
Porque partir envolve partir.

Partir-se ao meio;

em sonho, esperança e saudade. 

Deixar de lado coisas 
e para trás algumas... "Bobagens." 

Que até gostamos,

mas não cabem na bagagem. 

Bagagem é coisa que a gente leva, 

leva, 

leva até tomar coragem pra também deixar para trás.

Óie só! Quanta coisa nos remete a atrás:

Deixar para trás. 

Olhar para trás...

Ir atrás,

longe,



distante
(de lá trás). 


Eu só quero... quero não,

espero!

que não decida voltar atrás...

Não agora, depois que decidiu partir. 


Porque sua partida me partiu 


( e eu já me cortei de mais tentando juntar meus cacos ).

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Dos momentos em que senti o tempo parar

 Silêncio,



— ... Temos assunto para uma vida inteira.



Suspiros,



— Deseja dividir uma vida comigo?



Sorrisos,



— Não uma... —



Olhares,



— Talvez duas, ou três.



Planos.




segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Pior bebida de todas

 No bar chamado Karma, cheguei pra lá da tarde. Cheio de muitos outros como eu, cada um com suas lamentações. Romeo e toda sua pomposa paciência sempre tirando proveito da situação, folheando uma caderneta, anotando as grandes dividas, recebendo pagamento com histórias e lágrimas como gorgeta. 


Tranquila cheguei e me sentei próximo daquele filha da mãe, cafetino dos amargurados. 
( Apelido carinhoso, obviamente. )

Bati no balcão, pedi a bebida mais amarga que ali tivesse, virei um copo.

Tossi como se tivesse engolido a droga de uma lagarta de fogo. 

Romeo até ensaiou um sorriso, quase louco ao ponto de mangar de mim. Desistiu no caminho. 

Encheu meu copo, bebi a metade querendo cuspir, deixei de lado.

Ele apenas suspirou, com aquela cara mulquirana de quem não ia desperdiçar. 

Bebeu o que sobrou da dose, e se serviu de mais dois quartos. 

Tive ódio do filha da puta, para ele parecia tão fácil...

"Não é a primeira desilusão que bebo, de certo não vai ser a última." Respondeu tranquilo, voltado às suas contas.

"Já bebeu tanto assim? Ao ponto de se tornar indiferente?" Perguntei sem conseguir segurar o espanto.

"Para isto? Nunca é o bastante. Mas o que eu já bebi foi o suficiente para me abtuar aos queimores de quando desce, e ao bile quando sobe. Já não vômito mais, engulo tudo outra vez, e bebo mais um pouco. Temo que nem mesmo se eu bebesse todas as desilusões do mundo eu me tornaria indiferente. 

Ninguém se torna, não há como. 

Não importa quanta vezes você apanhe, com o tempo os ossos endurecem, os músculos caliçam. 

Mas ainda vai doer. 

Por vezes um pouco menos, por vezes um pouco mais. 

Nunca anestésico. "

"Tantos amores no currículo deveria me servir de algo, ao menos." Resmunguei ainda inconformada. 

Romeo sorriu, e me serviu mais um copo.