quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Você me embriagava






Foi lá pela quarta ou quinta lata de cerveja
Em uma festa qualquer durante o carnaval
Que me peguei lembrando de você.

E foi na terceira dose de Whisky que constatei que minhas comparações eram ridículas,
Mas faziam sentido.

Na minha cabeça, claro.

É, talvez eu já estivesse bêbada.

( Só talvez. )

De alguma forma, as bebidas me faziam lembrar bastante você.

E eu parei para analisar;

A forma que você me aquecia por dentro
E me deixava com o pensamento leve
E o corpo relaxado

Muito se assemelha ao Whisky.

Ou como um único beijo seu
Me deixava levemente embriagada,
E suas palavras atravessadas
Me deixavam com um incômodo na garganta

Eram como uma dose de aguardente.

Seu sorriso tinha os mesmo efeitos
Das batidas e caipirinhas

Me contagiavam e me deixavam alegre...

Mas apenas quando a garrafa do Pérgola estava pela metade,
Quando eu já me encontrava em casa
Remoendo minhas mágoas,
No conforto da minha varanda,
Que me dei conta

Que talvez eu tivesse passado da conta.

Mas como uma boa alcoólatra,
Treinada em madrugadas solitárias,
Não iria desperdiçar
Meio litro do meu vinho preferido.

( Não era eu que costumava deixar as coisas pela metade. )

Engoli tudo em tempo recorde, assim como fiz com as dores que você me provocou.

Então parei para pensar

Sobre a maneira que o vinho, assim como você,
Me incendeia e depois esfria.
Faz com que a chama exploda
Ecloda,
Perdure pelo que restou da noite,
Mas sempre acaba se apagando,
Esfriando,

E me deixando.

E na manhã seguinte,
Tudo que me resta

É uma terrível ressaca.

E foi quando meu estômago revirou
E minha cabeça rodou,
Que percebi
Que de fato,

Misturar bebidas não é algo sensato.


E senso nunca foi meu ponto forte.

Preciso parar de beber.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Sepulcral



Em uma semana te escrevi uma carta
Nessa mesma semana bebi uma vodca barata
Nesse meio tempo perdi a conta de quantas vezes te encontrei
E de quantas vezes me perdi

Não há nada para ser feito agora
Promessas quebradas juntos às garrafas vazias
Todo os restos do que já fomos um dia
Apenas memórias de uma mente pertubada
Cacos de uma pessoa quebrada
Dando tudo de mim até quando não me resta nada
Apaguei seu número e rasguei os poemas
Nada me ajuda a enfrentar esse meu dilema

Então eu sento no escuro
Deito e abraço os pedaço de mim
Tudo um dia chega ao fim
Álcool, niconita 
Insulina

Intorpecida com os próprios sentimentos
Eu me sufoco com tudo que eu não te disse
E eu bebo, bebo e bebo
Até que a bebida se torne gastrite
Mas isso não cura os nossos corações
E eu fumo, fumo e fumo
Até que eu precise de novos pulmões

Querida
Eu apenas lhe peço um favor
Se em seu peito ainda lhe restar amor
Se eu morrer de overdose, suicídio, ou 
Sufocada pelas palavras em minha garganta
No dia da cremação
Não jogue rosas em meu caixão
Jogue o que restou do destilado
E acenda o fogo
Com meu último cigarro





sábado, 5 de janeiro de 2019

O dia em que fiquei doente






Já era de manhã e eu pouco tinha dormido, minha cabeça estava prestes a explodir e a claridade entrando pela janela me irritava profundamente.
Eu apenas queria vegetar em paz.

Ouvi o barulho das chaves no portão e me virei para esconder o rosto no sofá.
Não se demorou muito até que eu conseguir ouvir os protestos da minha mãe.
(Amém, pelo menos não era o meu irmão.)

Revirei os olhos para seu habitual ritual de reclamações.

A casa estava uma bagunça!

Mas, e daí?

Minha mente estava uma bagunça.
Minha vida estava uma bagunça.
Eu estava uma bagunça.

Mas essas últimas três bagunças ela não tinha o conhecimento.
Ou tinha e não se importava.
Não sei dizer.

"Da para você ao menos olhar para mim enquanto estou falando?"
Sua voz irritada me trouxe de voltar a realidade, e eu fiz o que ela pediu. 

"Por quê não foi a escola ?"

Seu tom irritado mudou para algo incerto.
Ela não gostou do que viu. 
Isso eu posso dizer. 
Tinha algo de errado, era nítido,
Não na sua expressão carrancuda,
Mas na minha cara de derrota.

"Você poderia pelo menos considerar perguntar se estou bem antes mesmo de fazer qualquer reclamação ?"

Até mesmo a minha voz denunciava o quanto eu estava mal, era o combo perfeito.
Minha voz de fracassada, e minha cara de derrota.

"Você adoeceu de novo ? O quê você tem ? Já tomou remédios ?"

A preocupação se fez presente e eu não dei a mínima, voltei a me perder nos meus devaneios.

Era o que eu sabia fazer de melhor. 

Quando voltei a mim ela já não estava na minha frente, e sim batendo os armários da cozinha.

"Isto deve ser crise alérgica, o tempo vem mudado muito ultimamente."
Eu apenas ouvia seu monólogo e observava seu vai e vem pela casa.

Sim, os tempos vinham mudando.
Tão depressa que eu mal posso acompanhar, e com mais frequência do que você pode imaginar, e assim estou aqui, perdida em meio ao meu próprio espaço-tempo. 

Era outra coisa que eu sabia fazer muito bem.

Mais uma vez o barulho das chaves me fez acordar. 

"Irei a farmácia comprar outro antialérgico e depois irei comprar algumas frutas, quer alguma coisa ?"

Lhe sorri fraco, e uma lágrima desceu lentamente queimando meu rosto.
Em instantes a vi de joelhos, próxima ao sofá, sua mão acariciando meus cabelos me fez fechar os olhos.

"Está doendo muito ? Quer ir ao hospital ?"

"Mãe...
Na farmácia
Vende remédio
Para coração partido ?"



Um ano se passou depois disso e, bem, eu não obtive uma resposta. 
Mas, se eu tivesse de responder essa pergunta para minha filha, isto é, se eu tivesse uma, eu lhe diria que procurei remédio para meu coração partido em todas as farmácias que eu conhecia. Nas do meu bairro e até mesmo nas do bairro vizinho.

 Não encontrei em nenhuma delas.

Hoje sei que se eu tivesse procurado em um bar,
certamente...

Encontraria.

(E nem seria preciso ir tão longe, minha cidade tem um bar em cada esquina.)

Eu contínuo sendo muito boa em me perder no espaço-tempo de meus próprios devaneios. 
Mas, atualmente, beber é o que faço de melhor.