Inspirada por Soneto de fidelidade, quis te fazer uma poesia
E por mais que eu não fosse nenhum Vinícius
Juntei palavras na tentativa de um Soneto de saudade
Eu que jurei nunca te fazer sonetos, arranjei tercetos mal feitos nesses versos incompletos
Na vaga esperança de conseguir algo concreto, discreto e que te atinja
Como aquela onda me atingiu
( Seus olhos eram como aquela mar )
Relembrei
Que eu já havia te visto antes
Mas quando te enxerguei...
Senti cheiro de casa.
Era areia molhada, brisa marítima, pescada saindo do mar nas mãos dos pescadores de arpão
Mas acima de tudo tinha cheiro de você, tua pele fria e o perfume do teu cabelo
Inspirada em Soneto de fidelidade eu quis te escrever um Soneto de saudade mas minhas frases são grandes demais para serem sonetos e minha saudade grande demais para caber em três quartetos e um terceto
Então resolvi tatuar na pele o que já tenho cravado no peito, e junto disso lembrar de você
No cheiro forte do sargaço das tardes no porto de Suape
Observando os tantos barcos atracados, dançando com as ondas
No caminho de Paraíso
Fechei os olhos e você estava em todos os meus passos
Nos caminhos que fiz pelo estado
Em cada esquina, ladeira e beco de Olinda
Nas placas das ruas e nas histórias das pontes
Nos bordéis e nos cordéis.
Você estava em tudo.
Pensei em te dizer que meu coração tem pouco espaço porque Recife está guardado.
Mesmo assim, arranjei lugar para você, entre quadros desenhados nas praias, garrafinhas de areia, as pequenas galinhas, o pôr do sol laranja, a maresia soberba e o calor humano das ladeiras em dias de prévias.
Te deixei bem guardada também, o retrato bem cuidado longe dos respingos de suor para não danificar. Perto de tudo que eu amava, mas reservado para ver se eu parava de comparar.
Não deu certo.
Continuei te vendo em todos os lugares.
É que eu nasci nas águas de março mas te mostraria o que há no meu coração.
Sobre fevereiro, a paixão que há em qualquer folião
As ladeiras, o calor, os atabaques.
A paixão com que eu erro os acordes do meu violão desafinado, é que não sei medir força quando eu toco e até esqueço que não sei tocar tão bem assim e me desconcentro pois as lembranças do seu sorriso se confundem com as memórias que tenho de Recife.
E eu não poderia te dizer que te amo de forma diferente, de forma mais sincera e crua que essa.
Como se em minha mente eu não estivesse de mãos dadas contigo pelas ruas do Antigo
Tendo Santa Rita como testemunha das coisas que aconteceram na Aurora, perto da Bom Jesus.
Te amei como amo os sóis de Recife.
Como seria possível eu escrever como o Vinícius? Como eu poderia te dizer que de tudo ao meu amor serei atento, se eu não me atento aos detalhes?
Eu fui trabalhar num sábado, esqueci que estava de folga. Acordei no desespero achando que perdi a hora da aula, esquecendo que já terminei a escola.
Minha mãe me dizia que eu não esquecia a cabeça porque era agarrada
Mal sabe ela
Que já perdi a cabeça tantas vezes que mal posso contar.
É só para me contradizer
Eu te amei nos detalhes, e me expressei nós detalhes.
Acontece que não era de detalhes que você precisava.
Como já esperado, como já me conhecem, não demos certo.
Enchi minha cabeça de trabalho para esquecer o peito cheio de saudades, passei o tempo livre tatuando minhas feridas, já que as cicatrizes tinta alguma consegue cobrir.
É foda.
Sair do nordeste é viver contrariado e dividido.
E ser Pernambucano é isso, uma saudade imensa... E saudade é ferida aberta sangrando aos poucos, não mata, mas enfraquece.
E se você for são, te enlouquece.
Mas eu não quero te falar das coisas que aprendi nos discos.
Eu não saberia te dizer da minha saudade, além do que você já sabe.
Que minha saudade não cabe num verso, nem mesmo num poema inteiro.
Nas férias talvez eu vá para Recife
Assistir o pôr do sol no cais, ou buscar meu coração na alfândega.
Sei lá, quero celebrar meu amor na terça de carnaval e sofrer por ele na quarta de cinzas, desejando voltar ao início... No sábado de Zé Pereira.
Queria poder te mostrar o sol que eu conheço.
Vou voltar para Recife, colocar minha alma no lugar, pois ela saiu de mim correndo solta e tenho certeza que foi parar lá.
Mas eu lembrarei de você sempre que possível...
entre meus textos e os meus pretextos
